domingo, 29 de maio de 2011

DIRETO AO PONTO


DESCONSTRUINDO PARADIGMAS MÉDICOS

José Pinto de Queiroz Filho - Professor Adjunto da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

A interação médico/paciente e a mesa de consultório

Proxêmica é a ciência que se propõe estudar como os indivíduos interpretam e utilizam o espaço entre eles, dentro do processo de comunicação. Comentarei, aqui, sobre o uso da mesa de consultório, entidade anciã e onipresente, denunciando-a como uma barreira que separa o médico do paciente dificultando a comunicação durante a consulta clínica.

De um lado da mesa -, território privilegiado do doutor -, encontra-se o médico, seu dono e detentor do saber cientifico, que costuma preenchê-la com objetos pessoais, estranhos ao paciente. Habitua-se a sentar-se numa cadeira usualmente mais alta e mais confortável que a do paciente. Esta simples configuração do setting terapêutico costuma atrapalhar a comunicação porque permite que o médico assuma uma duvidosa posição superior e, ao mesmo tempo, funciona como proteção ou defesa (!?) contra as idiossincrasias inevitáveis da interação com o semelhante.

Do outro lado da mesa, frente a frente com o interlocutor, está o paciente na posição inferior de mero visitante adoecido, frágil e cientificamente ignorante, obrigado, por sua condição de doente, a participar de uma interação assimétrica – onde o médico domina e ele é dominado. Neste contexto não tem outra opção, senão retrair-se e se deixar subjugar. Fica ansioso, vulnerável, intimidado impossibilitado, portanto, de se comunicar com a eficácia desejada, principalmente quando o tempo que dispõe é perversamente limitado. Algumas vezes, numa atitude reativa de contestação, tenta ser competitivo e não colaborador agravando a interação com novos conflitos que vão prejudicar, ainda mais, a eficácia da comunicação clínica.

Constrói-se, assim, um contexto vicioso que vai impossibilitar o exercício de uma comunicação de qualidade, necessária para o exercício pleno de uma interação clínica bem-sucedida. Por isso, defendo a abolição do posicionamento da mesa1 que separa o médico do paciente atuando como um obstáculo sólido a impedir a comunicação clínica efetiva.

1 A mesa pode continuar, mas, de preferência, ao lado do médico e do paciente

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA - A ARTE DA ESCUTA

José Pinto de Queiroz Filho
Para o médico a entrevista é um IBM (INSTRUMENTO BÁSICO DA MEDICINA) que lhe permite abordar o indivíduo adoecido no espaço da consulta clínica -, área operacional definida por regras sobredeterminadas onde os interlocutores devem interagir dentro das limitações estabelecidas por essas regras capazes de propiciar o diálogo médico/doente (ver fig) através de técnicas, táticas e estratégias de comunicação centradas no paciente.


Arcabouço do Contrato

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O arcabouço do contrato contém e delimita o espaço de manobra, dentro do qual os interlocutores podem exercitar as técnicas, táticas e estratégias interativas para definir as condutas das relações (pragmática da comunicação) e produzir o sentido das mensagens (semântica da comunicação). Constituí-se, portanto, o espaço de manobra (da linguagem, da conduta, do tempo, do espaço, dos conteúdos, da finalidade, etc.) de que dispõe os sujeitos comunicantes para construir seus discursos. É desse conjunto constituído pelo arcabouço de referência e pelo espaço de manobra das estratégias, que depende toda a situação de comunicação.


Dentro do espaço de manobra, o médico precisa tornar-se hábil para escutar e para dizer, sempre centrado no doente. Mas a grande questão concentra-se mais sobre o como dizer. Isto é, sobre as escolhas e o exercício das estratégias de organização do discurso, com o objetivo de produzir efeitos semânticos e pragmáticos no destinatário da comunicação, efeitos que devem ser liberadores, construtores e desinibidores característicos de uma entrevista clinica bem-sucedida.



Entrevista Clínica Bem-Sucedida?

Estou ciente de que é complicado chegar-se a um acordo a respeito do que é uma "interação clinica bem-sucedida". Para os propósitos da Medicina, pressuponho que a interação clínica bi-pessoal bem-sucedida é aquela que se realiza em benefício do paciente, coerente, portanto, com os desejos, os interesses e as necessidades desse paciente porque ancorada no seu mundo intrapessoal. É, por conseguinte, uma interação centrada no paciente na qual o entrevistador precisa adotar uma postura interpessoal facilitadora para liberar, estruturar e individualizar o discurso que está sendo construído e garantir que a comunicação do paciente seja menos uma resposta à comunicação do entrevistador e mais a explicitação de seu próprio mundo intrapessoal.



A suposição contrária é a de que a relação clínica bi-pessoal mal-sucedida, viola a regra básica de centrar-se no paciente, optando por centrar-se mais no mundo intrapessoal do entrevistador. Dessa forma, com as estratégias mais direcionadas para os interesses, desejos e necessidades do entrevistador, a produção de sentido e a definição das condutas pragmáticas tornam-se estranhas, inibidoras e desqualificantes para o entrevistado. Supõe-se que tais dificuldades de comunicação podem produzir violentos "rasgões" no tecido comunicacional, inviabilizando uma comunicação interpessoal bem-sucedida.


Curioso é que durante o processo interativo, os interlocutores estão parcialmente inconscientes das regras que devem ser seguidas numa comunicação bem-sucedida, ignorando, também, até certo ponto, as desqualificações que violam a interação discursiva, gerando a comunicação mal- sucedida. De outra parte, se a opção é ter uma percepção mais nítida do processo, em si, da estrutura formal e final da teia interacional, precisa-se analisar a cadeia dos discursos com certa independência do "conteúdo" .



Contribuição da Área Jornalística
Numa linguagem simples e cativante, embora da perspectiva da entrevista jornalística, CAPUTO fala sobre técnicas de entrevista que podem interessar ao médico:


“Perguntamos porque não sabemos a resposta e queremos saber perguntar de verdade. Querer ouvir de verdade é o que nos ajudará a construir uma boa entrevista.


Podemos estragar nossas perguntas de duas formas. Quando buscamos "arrancar" algo do entrevistado e quando nos impregnamos de arrogância e perguntamos imaginando saber as respostas ou apenas para comprovar nossas próprias opiniões e teses sobre um assunto. O que nos resta então? A honestidade da criança que, para além do o que é?, pergunta sempre por quê? E como?


A criança pergunta porque realmente quer saber a resposta. Por isso sempre ouve a resposta. Além disso, com suas perguntas, a criança desconcerta, muda a perspectiva, sempre coloca um outro ponto de vista que desarruma o que pensávamos arrumado
”.


Pré-definindo um Objetivo Geral
Diante de todo novo paciente alunos e profissionais experientes costumam vivenciá-lo como um enigma a ser desvendado. Na verdade, esse é um dos aspectos fascinantes da profissão. O médico chega ao consultório, ambulatório, hospital ou outro lócus em que trabalha sem a menor idéia do que irá encontrar.


Sendo assim, parece-me importante delimitar com precisão um objetivo geral que deverá conduzi-los na feitura da entrevista. Sugiro, então, que, para começar, se tenha em mente a indagação: O que pretendo obter com esta entrevista?



Delimitando Objetivos Específicos


 Identificar-se ao paciente, e explicar os objetivos da entrevista.
 .
 Perguntar ao entrevistado como prefere ser chamado.

 Estar ciente de que nada substitui o "olho no olho".

 Quando examinamos um doente, não há como separar as quatro interfaces (somática, mental, social, pessoal) porque o adoecer afeta o paciente como um todo, na sua integridade unívoca. Por isto, procure abordá-lo sempre da forma mais ampla possível para abranger todas as suas interfaces e obter o máximo de variáveis sobre a sua saúde e a sua doença (do paciente).

 Quanto mais variáveis forem identificadas mais ampliadas ficarão as explicação e compreensão do doente e da doença, tornando maiores as possibilidades de se estabelecer um diagnóstico mais preciso e uma terapêutica mais efetiva.

 Saiba quando usar o interrogatório dirigido e a entrevista semidirigida, ambas úteis quando empregados em contextos clínicos diferentes.

 Tenha em mente, na prática clínica enfrentamos todos os dias desafios e conflitos que testam a nossa ética e a nossa humanidade.

 Ao terminar a consulta faça um resumo da entrevista para o paciente e pergunte-lhe se é necessário corrigir ou complementar os dados.

 Dê-lhe também a oportunidade de falar, se quiser, sobre algo importante que deixou de dizer durante o transcurso da entrevista, porque teve vergonha, não quis ou não se lembrou.



Tomando decisões

Tomar decisões médicas (de diagnosticar, solicitar exames, executar procedimentos arriscados, prescrever tratamentos) são escolhas. E a escolha implica em exclusão porque, em geral, quando escolhemos uma coisa, excluímos as outras. Por isso, ao longo da vida, o tomar decisões obriga o médico a fazer escolhas difíceis e a assumir as responsabilidades pertinentes.



Tipos de Entrevista

Interessam-me as entrevistas diretiva e semidiretiva.


Entrevista diretiva
A entrevista diretiva utiliza perguntas com gabaritos pré-definidos, genéricos e repetitivos que não podem ser individualizados. Desta forma, fornece os dados genéricos, mas oculta os específicos. Sustenta-se em questionários e roteiros padronizados que resultam em tabelas e dados estatísticos. Por isso, não serve para abordar o todo somático/mental/social/pessoal que é o paciente.


Destina-se a investigações quantitativas (tudo que pode ser quantificado como padrões de peso, altura, tamanho, medidas de dados vitais, etc.), mas é incompetente para promover a comunicação entre as pessoas porque engessa a livre interação entre entrevistado e entrevistador.



Entrevista Não-Diretiva

A entrevista não-diretiva – é a que se sustenta nos princípios de antropologia, sociologia e humanismo. É fundamental para a prática da Medicina porque permite que se conheça o paciente na sua totalidade.


Na prática, não-diretividade significa deixar o entrevistado falar (quase) livremente. O bom entrevistador sabe escutar, pois a entrevista é, antes de tudo, a arte da escuta. Neste caso, entrevistado e entrevistador saem transformados do encontro.


Em geral, alguns entrevistadores tendem a intervir procurando controlar o discurso do entrevistado, mas quanto mais deixá-lo falar, melhor. Na verdade, alguns entrevistadores só são capazes de exercer a escuta inteligente, se antes se submeter a um aprendizado.



Percepção Passiva e Percepção Ativa
Os sensórios são interfaces permeáveis responsáveis pelas trocas de informações entre o sujeito e a realidade exterior; quer dizer, entre o mundo interno do indivíduo e o mundo externo onde ele se encontra inserido. Ou de forma mais sintética, entre as experiências intracerebrais do ser vivo e a realidade extracerebral que lhe circunda.


Sobre o tema, BOSI escreveu, exemplificando com a visão:
“Há um ver-por-ver, sem o ato intencional do olhar; e há um ver como resultado obtido a partir de um olhar ativo. No primeiro caso, o cego, curado de sua doença, poderá dizer: "Estou vendo!" No segundo, a pessoa dotada de visão, depois de olhar atentamente para o céu, exclamará: "Finalmente consegui ver a constelação do Cruzeiro". (Bosi, in Novaes, 1988, p. 66).


Da mesma forma como Bosi discerniu duas maneiras de olhar, um olhar receptivo e um olhar ativo, podemos classificar o exercício da entrevista em receptivo e ativo.


Significa que podemos captar as experiências da realidade de duas formas: voluntária (ativa)e involuntária (passiva).

È receptiva, passiva ou involuntária quando captamos as experiências de forma não intencional; e ativa ou voluntária quando fazemos a busca intencional da realidade que queremos captar. A entrevista clínica precisa, de preferência, ser exercida de forma ativa.


Finalizando
A entrevista médica é um instrumento básico da Medicina que se processa nos espaços da consulta clínica (consultório, ambulatório, hospital e quejandos) e é regida por regras sobredeterminadas. Permite a abordagem semiológica das interfaces somática, mental, social e pessoal do indivíduo e deve ser praticada sempre centrada no paciente.



Referências:
Professor Adjunto de Psiquiatria da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
Instrumento Básico da Medicina
QUEIROZ, José Pinto de, monografia para o curso de Saúde Mental da EBMSP.
CAPUTO, Stela Guedes, Sobre Entrevistas, teoria, prática, experiências.. Digital source.
Citado por CAPUTO, Stela Guedes, in Sobre Entrevistas, teoria, prática, experiências.. Digital source

sábado, 8 de março de 2008

MEDICINA: NOVAS COMPETÊNCIAS, NOVOS DESAFIOS

MEDICINA: NOVAS COMPETÊNCIAS, NOVOS DESAFIOS

José Pinto de Queiroz Filho [1]

"Lamento não estar iniciando meus estudos hoje. As possibilidades de pesquisa atuais são bem mais interessantes do que há quarenta anos, quando comecei", Steven Rose, neurocientista. Declaração feita à revista VEJA, edição 1976, de 04 de outubro de 2006.

Primórdios

Desde os primórdios, pela própria singularidade do labor médico, o estudo das dimensões humanas, distintas da biológica, sempre fizeram parte do ideário da Medicina.

Historicamente, o ser humano sempre divinizou o médico atribuindo-lhe competência para atender às suas múltiplas necessidades, incluindo a escuta e a resolução de suas aflições. Pode-se compreender tal atribuição atentando-se para o fato de que, na origem da Medicina (oráculos, xamãs, feiticeiros), as práticas de saúde eram mediadas por relações deificadas, sustentadas por temáticas religiosas primitivas e/ou do senso comum.

O domínio do biológico

No início do século XX (principalmente, após as duas Guerras Mundiais), desencadeou-se um inconteste e extraordinário desenvolvimento da tecnologia aplicada à Medicina – um caminho sem volta – trazendo incalculáveis benefícios para a humanidade. Junto, o desenvolvimento simultâneo de saberes biológicos - habitualmente, produzidos pelos próprios médicos no exercício de suas práticas -, gerando frutos simultâneos nas áreas investigativas e curativas de ponta. À luz forte das evidências, o clínico sentiu-se estimulado a procurar no corpo as respostas para explicar as doenças. Como conseqüência, diminuiu o seu interesse pela subjetividade do paciente e passou a eleger a abordagem somática como paradigma da prática médica. A abordagem psicossocial foi colocada em segundo plano.

Patologia Biográfica: abordagem tridimensional, biopsicossocial

“A partir dos anos vinte deste século (XX) começam a surgir críticas paulatinamente crescentes à maneira pela qual se processa a prática clínica. Existia uma mal estar, que começara a se difundir em alguns meios médicos, principalmente alemães, quando ao desconhecimento recorrente da pessoa dos enfermos por parte dos médicos. Estes os encaravam como meras máquinas corporais, despreocupados com os sofrimentos mobilizados pelo estado da enfermidade nos indivíduos. Mediante esta crítica, se estabelecia uma distinção fundamental, se destacando um outro campo de preocupação tecnológica para os clínicos. Assim, seria necessário considerar além da enfermidade somática propriamente dita, explicada num discurso biológico, a vivência da enfermidade, isto é, os seus efeitos na subjetividade do indivíduo que enferma.” [2]

No evoluir, a ênfase no biológico começou a criar conseqüências paradoxais:

- Os avanços significativos dos saberes e da tecnologia, não conseguiram produzir mudanças profundas na qualidade de vida do paciente; tampouco aperfeiçoar as práticas de saúde fundamentadas em valores humanitários sólidos. [3]

- Incomodados, os próprios usuários do sistema de saúde começaram a cobrar, do médico, mais atenção, acolhimento, escuta, argumentando: tais atitudes são tão importantes para o processo de cura quanto a competência técnica. [4]

- A cientificidade da prática, com ênfase no soma, não está sendo suficiente para diminuir a popularidade da medicina não-convencional, dita, sem base cientifica.

- Enfim, o sucesso da Medicina focada na tecnologia do biológico, que deveria ser acompanhado pelo aumento do grau de satisfação de médicos e pacientes, vem mostrando um número crescente de desiludidos e insatisfeitos. [5]

“Inicialmente a receptividade da instituição médica foi nula”. [6], mas influenciada por conceitos oriundos da psicanálise, foi atualizando a validação do sujeito. Na progressão, no momento em que a psicanálise mostrou-se um campo disciplinar atrasado e pré-paradigmático [7], povoado de diversidade de escolas, em que cada uma delas reivindica o domínio absoluto do saber único e universal sobre a psiquê humana -, a medicina foi se desvencilhando, pouco a pouco, dos marcos teóricos da doutrina freudiana e passou a privilegiar os quadros conceituais de outras teorias psicológicas para reinventar seu próprio caminho.

A decisão de validar clinicamente o sujeito biográfico fortaleceu-se na medida em que as dimensões psicológicas e sociais foram se legitimando cientificamente, firmando-se como causalidades de outra natureza -, agentes co-responsáveis no processo do adoecer. Acordou-se, então: a abordagem da doença não pode se processar unicamente dentro de uma visão puramente biológica devendo considerar as vivências decorrentes do adoecimento, bem como o quanto a qualidade de vida - a sensação subjetiva de bem estar - se encontra comprometida. Apesar disso, deve-se atentar para o fato de que “...em todos os quadros conceituais em que a problemática é formulada não se postula que estes fatores psíquicos são exclusivos, mesmo que considerados fundamentais, pois se articulam com fatores outros, de ordem somática, e do seu entrelaçamento causal serão produzidas alguma enfermidades somáticas.“[8]

E mais: “Na tentativa de uma definição abrangente, alguns autores priorizam ser (a qualidade de vida) envolvida por todos os aspectos que temporalmente cercam o diagnóstico e tratamento de uma doença e se estendem além da questão médica (mecanicista), incluindo estilo de vida, comunidade e vida familiar. Shin & Johnson sugerem que a qualidade de vida consiste na possessão dos recursos necessários para a satisfação das necessidades e desejos individuais, participação em atividades que permitem o desenvolvimento pessoal, a auto-realização e uma comparação satisfatória entre si mesmo e os outros. Da mesma forma, o "Grupo para Qualidade de Vida" da Organização Mundial de Saúde inclui em sua definição a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto cultural e no sistema de valores em que ele vive e em relação a seus objetivos”. [9]

Por conseqüência, os eventos biográficos do sujeito revitalizam-se no campo dos saberes e da prática médica, impulsionando o clínico a se ocupar, outra vez, com os aspectos psicossociais de seus pacientes.

Para implementar tais habilidades, os currículos das escolas médicas estão sendo reformulados com a introdução de novas disciplinas essenciais para o aprendizado das novas competências, com status idênticos àquelas ditas biológicas. Hoje, o seu braço clínico mais importante são as disciplinas Semiologia Mental, Psiquiatria e Psicologia Médica, as duas últimas ministradas na maioria das escolas de Medicina.

Some-se a isso, a tentativa de sistematizar novas (!?) habilidades, tais como:

1 – A COMUNICAÇÃO CLÍNICA, como procedimento privilegiado para o sucesso do ato médico

A comunicação é a essência de qualquer atividade humana. Em Medicina, sempre foi onipresente, a cada passo. Dada a sua relevância no exercício da prática médica, a tendência atual é considerar o aprendizado pragmático da comunicação clínica como nova (?!) habilidade instrumental indispensável para a construção de uma relação médico/paciente bem-sucedida, base do sucesso de tudo mais que lhe sucede - diagnóstico, prognóstico, terapêutica.

2 – Terapêuticas NÃO ALOPÁTICAS

O uso das drogas, altamente necessárias quando bem indicadas, se utilizadas isoladamente nem sempre é suficiente para atender ao paciente como o todo que ele é. Além disso, a medicalização, pura e simples, estimula a sua passividade, tornando-o menos capaz de co-participar de seu próprio tratamento. Para capacitar-se às novas exigências, o médico não especialista passou a se familiarizar com outras formas de terapia não/alopática -, naturais, vicinais, psicoterápicas.

3 – VIESES mais amplos

A patologia do ser humano não se resume ao soma. É muito mais que isto. “Realizar o diagnóstico no nível lesional ou no disfuncional seria manter-se no plano superficial da enfermidade.” [10] A patologia está localizada no corpo anatomopatológico, mas também no corpo afetivo e no corpo das inter-relações pessoais. Por isso, não se pode ignorar “... coisas fundamentais como de que o doente é antes de mais nada uma pessoa que sente e sofre como qualquer outro humano, principalmente quando se defronta com a experiência e a possibilidade da morte.“ [11]

Os que se concentram nos dados somáticos, dando pouca importância aos fatores biográficos, ignoram que só podemos exercitar, com eficácia, a nossa atividade clínica quando nos centramos no paciente como sujeito, valorizando a sua totalidade biopsicossocial.

4 – Incursões na área SOCIOECONÔMICA

A onipresente dificuldade socioeconômica da maioria dos enfermos de nosso país é outro dado que impele o médico a ampliar a percepção do processo saúde-doença para além do enquadre clínico da consulta tradicional.

Enfim, são novas competências e novas responsabilidades próprias da prática médica do século XXI que tem o objetivo de promover a saúde do paciente na sua integralidade biopsicossocial.

Concluindo

A Medicina, nos primórdios, ocupava-se em compreender o ser humano. As evidências de que o corpo é a causa primeira das enfermidades, levou o clínico a privilegiar a explicação da doença, em detrimento da compreensão do doente. O vínculo explicativo (causal) predominou (e, de certa forma, ainda predomina) sobre o vínculo compreensivo (significado). Posteriormente, os fatores psicossociais começaram a ser implicados como co-responsáveis na precipitação e/ou na manutenção das enfermidades, e o clínico viu-se obrigado a revalidar o liame compreensivo. O novo olhar também exigiu, das escolas médicas, mudanças nos currículos para adequá-los aos novos tempos.

Pós-conclusão: a propósito de CRÍTICOS

Com a ampliação das perspectivas semiológicas e terapêuticas no espaço da prática médica -, que ratificou a hegemonia médica na área de saúde -, surgiram críticos e opositores. BIRNE resumiu a questão numa frase emblemática, quando criticou a orientação clínica de BALINT: “A Medicina se transforma miticamente na promotora da felicidade humana, na medida em que tende a se ocupar de uma parcela crescente dos conflitos apresentados pelos indivíduos no seu cotidiano”. [12]

Das críticas, emergiram acusações. Comentaremos duas:

1. O expansionismo da Medicina converte o profissional num representante dos interesses das elites, “lugar estratégico do controle político das massas”. (BIRMAN, 1980)

2. O médico resiste a dividir o poder e a hegemonia na área de saúde.

Discordo de ambas. No meu entender, trata-se de uma avaliação equivoca dos profissionais de saúde de atribuir, a cada médico, a competência pelo campo todo da Medicina.

Por conta desta perspectiva destorcida, outros críticos defendem a necessidade de se fragmentar a Medicina em novas profissões múltiplas e delimitadas, sob a alegação de que os saberes médicos se agigantaram de tal forma que não podem mais ser domínio de uma só profissão.

Os médicos estamos cientes de que a Medicina (e não somente a Medicina) possui saberes e práticas cujas amplitudes nenhum profissional, individualmente, é capaz de abarcar. É certo que, genericamente, somos melhores informados do que o leigo, e menos que um colega especialista, mas tal constatação não implica em expansionismo ou na necessidade de manter, a todo custo, o poder e a hegemonia. No meu entender, tal postulação traduz uma tentativa ingênua de fragmentar as práticas para reduzir a influência do médico na área de saúde. Esquecem-se, no entanto, o que nos faz um grupo profissional coeso é exatamente a formação básica, comum, que todos temos de adquirir antes da especialização. Este é o fundamento que nos torna uma classe profissional indivisível, apesar das especializações.

LIVROS E TEXTOS CONSULTADOS

1. BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980.

2. BALINT, Michael, O médico, seu paciente e a doença, Atheneu, Rio de Janeiro/São Paulo, 1975.

3. DELAY, Jean, PICHOT, Pierre, Manual de Psicologia, Toray-Masson, S.A. Barcelona, 1966.

4. FRANCISCO B. ASSUMPÇÃO JR., EVELYN KUCZYNSKI, MARIA HELENA SPROVIERI, ELVIRA M. G. ARANHA, Escala de avaliação de qualidade de vida, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.58 n.1 São Paulo mar. 2000.

5. CAPRARA, Andréa; RODRIGUES, Josiane, A relação assimétrica médico-paciente; repensando o vínculo terapêutico (a.caprara@flashnet.it).

6. KUHN, T, A estrutura das revoluções científicas, São Paulo, Perspectiva, 1970.

Endereço para correspondência

Rua Wanderley Pinho, 243/1003, Itaigara, SSA, BA, 41815-270.

Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Ladeira de Nazaré, s/no., Salvador, BA.

Tel: 71 34917724 e 71 81823839.

mrjustice@oi.com.br



[1] Professor Adjunto de Psiquiatria e Semiologia Mental da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

[2] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 91.

[3] CAPRARA, Andréa; RODRIGUES, Josiane, A relação assimétrica médico-paciente; repensando o vínculo terapêutico (a.caprara@flashnet.it)

[4] DELAY, Jean, PICHOT, Pierre, Manual de Psicologia Médica, Toray-Masson, S.A. Barcelona, 1966.

[5] Ibidem.

[6] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980

[7] KUHN, T, A estrutura das revoluções científicas, São Paulo, Perspectiva, 1970.

[8] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 93.

[9] In Escala de avaliação de qualidade de vida, FRANCISCO B. ASSUMPÇÃO JR., EVELYN KUCZYNSKI, MARIA HELENA SPROVIERI, ELVIRA M. G. ARANHA, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.58 n.1 São Paulo mar. 2000.

[10] BALINT, Michael, O médico, seu paciente e a doença, Atheneu, Rio de Janeiro/São Paulo, 1975.

[11] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 73.

[12] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 82.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

MENTE HUMANA - A PRIMA DONA

A prima dona deste blog é a Mente Humana. O objetivo a atingir é aprender a identificar suas funções, investigá-la clinicamente e intervir terapeuticamente sobre seus transtornos.

Ao que tudo indica o cérebro é o órgão essencial da mente. Não significa, no entanto, que, por si só, seja capaz de produzir atividades mentais. Ele necessita tanto da matéria prima – estímulos, internos e externos – como do “resto” do corpo – para nutri-lo com glicose e oxigênio – e para funcionar como instrumento de expressão.

Mas de qual mente estou falando? A mente humana que interessa ao médico é aquela que tem raiz no biológico e expressão no social. É, exatamente, entre o biológico e o social, que emerge o processamento mental, ou seja, a mente humana em funcionamento, vivida subjetivamente pela pessoa como seu mundo interior -, formas de estar consciente, de perceber, de sentir e de pensar, que são os determinantes internos do agir. Como conseqüência, toda vez que o biológico é danificado (nos vários níveis e por causas múltiplas) ou o social transgredido (através da comunicação patológica) o processamento mental de informações das pessoas fica perturbado.

Portanto, a minha diretriz é estudar a mente humana como um fenômeno vital que tem no cérebro o seu substrato orgânico axial; e é sustentado e alimentado pelo corpo e pelos estímulos extracerebrais. É este fenômeno vital que me permite estar consciente para perceber, sentir, pensar e agir.

Fundamento 01

A mente humana só pode existir se houver um cérebro vivo e funcionante sustentado pelo corpo e pelos estímulos extracerebrais.

“Esta ligação vital da mente com o cérebro vivo é mostrada no dia a dia da prática clínica, de forma aguda e dramática, quando topamos com indivíduos traumatizados de crânio, geralmente adolescentes ou adultos jovens vitimados por acidentes de veículos. É penoso e desolador vê-los mergulhados no coma profundo (cárus) com a consciência abolida e sem qualquer possibilidade de fazer contato com o meio. Pior, no entanto, por ser irreversível, é o estado de coma depassé ou coma vegetativo na qual o cérebro morre, literalmente. Diz-se, então, que o indivíduo descerebrou. A sua vitalidade fica reduzida a de uma preparação experimental coração-pulmão em que nem as funções vegetativas se sustentam espontaneamente, sendo necessário a manutenção ininterrupta da respiração artificial, da reanimação cardíaca e do tratamento do choque volêmico. Naturalmente, morrendo o cérebro também morre a mente e, sem ela, o indivíduo deixa de ser pessoa e se transforma num autêntico vegetal de carne.” [1]

Evidência clínica

Uma mulher com morte cerebral, foi mantida “viva” por quase três meses para que seu bebê pudesse se desenvolver. A criança, prematura, nasceu, após sete meses de gestação, com 800 gramas, através de uma cesária. Encontra-se em observação na UTI neonatal de um hospital em Arlington, Virgínia. O tio da menina, batizada como Susan Anne Catherine Torres, disse que não houve complicações no parto e que a bebê passa bem. O hospital não revelou informações sobre as condições de saúde da mãe após o parto.

A mãe, Susan Torres, sofreu um derrame no dia 7 de maio de 2005, após um câncer, que não havia sido detectado, ter atingido o cérebro. À época, ela estava no quarto mês de gravidez de sua segunda filha. O marido dela, Jason, deixou o emprego e passou os últimos três meses ao lado da mulher. [2]

Discussão

Indivíduo, pessoa, sujeito são três palavras usadas para caracterizar o ser vivo. São utilizadas, na linguagem comum, com sentidos assemelhados; na linguagem clínica, opta-se por significados específicos que ajudam a objetivar três diferentes status clínicos:

  • Indíviduo – Designa, apenas, as propriedades biológico-individuais que permitem ao ser vivo simplesmente existir. Indivíduo é o componente específico de cada comunidade – o cavalo, na manada, o peixe, no cardume, o homem/a mulher, na sociedade humana.
  • Pessoa – Indivíduo com personalidade em formação ou desestruturada, consciência incompleta de si e do contexto, incapaz de exercer a sua vontade, dirigir a sua vida em níveis pessoal e social e construir criticamente a sua biografia. Na clínica, refere-se à criança, ao psicótico, ao demente e ao deficiente mental grave.
  • Sujeito – Pessoa com personalidade desenvolvida, consciência plena (até o possível), capaz de exercer a sua vontade (até o permitido pelo consenso social), gerir as vidas pessoal e social e construir a própria biografia (administrando as circunstâncias).

Qual o status clínico de Susan?

Descerebrada (cérebro morto) pela metástase neoplásica, qual o status clínico de Susan?

  • De indivíduo? Sim. Apesar da morte cerebral, ela continua sendo um indivíduo pertencente ao gênero humano com arcabouço físico/biológico (organismo) competente para persistir vivendo, ainda que de forma assistida, em nível vegetativo, isto é, sem consciência, sem perceber, sem sentir, sem pensar e sem agir voluntariamente, impossibilitado, portanto, de experienciar a dimensão subjetiva e exercer a vida de relação.
  • De pessoa? Não. Por estar inabilitada para perceber, sentir, pensar e agir voluntariamente, ainda que de forma incompleta.
  • De sujeito? Também não, pelas razões citadas acima, com muito mais completude.

Na verdade, os médicos não prolongaram a vida da professora, esposa e mãe Susan Torres que já estava morta - o sujeito morre com a morte do cérebro. Ajudaram, sim, a manter em funcionamento uma máquina biológica impessoal, desprovida da dimensão subjetiva, isto é, da competência para perceber, sentir, pensar e agir interativamente com o contexto vital e ter consciência disto - o que bastou para dar seguimento a gravidez, até a consumação do parto.

Dimensão subjetiva: a mente humana vivida de “dentro” para fora

Sentado em frente do computador, tento escrever o presente texto. Silenciosamente, somente eu e os meus pensamentos. Pensamentos privados que só existem dentro de mim, no espaço virtual das minhas vivências.

Vivo a minha mente como um processar ininterrupto de informações. Aqui, estou consciente (conheço meu próprio conhecimento) de que quero escrever um artigo sobre a mente humana, para ajudar no aprendizado de médicos e estudantes de Medicina. Posso pensar só para mim, dentro de mim. Mas se escrevo, não o faço somente para mim, mas também para me comunicar com os outros.

Também sei, e estou ciente que sei, meu objetivo, agora, é o de colocar no papel informações de como funciona a minha própria mente, percebida por mim, de “dentro” para fora. [3]

Sendo assim, estar consciente, perceber, sentir e pensar são eventos que ocorrem na mente interior (intracerebral). Resultam do processar ininterrupto de informações, vivido pela pessoa como experiências subjetivas (ocultas para o observador). O agir (atitudes, comportamentos, ações) é o único evento objetivo (explícito, observável, à vista de todos) resultante do processamento subjetivo de informações – a mente em ação - que pode ser percebido pelos outros enquanto está acontecendo.

Realimentação e enriquecimento

Excetuando-se as premissas que persistem na consciência, nada mais se mostra pré-definido. Sinto tudo como um vir-a-ser que vai se organizando, no aqui/agora, como se eu estivesse construindo um caminho com o próprio caminhar.

Os pensamentos vão se articulando até que emerge a seguinte reflexão: habitualmente sou capaz de perceber 7 a 9 informações[4] por segundo. Multiplicadas por 60 segundos terei 420 a 540 informações percebidas, por minuto. Muito aquém de um computador simplório, capaz de processar milhões de informações por segundo. Mas, espere! Aqui, tudo indica, existe um paradoxo. Se o computador é capaz de processar informações em maior quantidade e maior velocidade, por que o meu cérebro mostra-se mais competente (e bote competência nisto) para viver e se adequar ao contexto vital?

Parece, penso comigo mesmo, a questão não se limita a processar informações em maior quantidade e em maior velocidade. Vai mais além. Meu cérebro é capaz de relacionar cada informação com constelações[5] de outras informações pertinentes. E cada uma dessas novas informações, traz novas constelações, isto é, um conjunto entrelaçado de tradição, valores, crenças, modelos abstratos, representações simbólicas, métodos e exemplos de procedimentos, aprendidos por semelhança e iniciação, proporcionando uma realimentação interminável. Sendo assim, no final de contas, os desdobramentos me dão, por vias transversas, muito mais informações, na unidade de tempo, do que a que pode processar o computador. E mais; o meu cérebro tem a competência (que falta ao computador) para selecionar informações pertinentes, afinadas com os objetivos que pretendo atingir, recortando-as de um todo em permanente crescimento.

Fundamento 02

O que faz a mente humana?

Em última instância, e já dissemos antes, capacita o homem a processar informações tornando-o competente para perceber, sentir, pensar, agir e estar consciente destas vivências.

Experiência subjetiva do processamento de informações

Vou ilustrar a atividade subjetiva da mente humana (no caso, a minha mente), como experiências internas de processamento de informações, relatando as minhas vivências subjetivas de um caso clínico que mostra também ser possível fazer uma abordagem biopsicossocial, mesmo com as limitações de um atendimento de emergência.

Aconteceu, em 2007.

Era um dia de domingo. Havia acabado de fazer uma deliciosa refeição, regada a um bom vinho, e estava me sentindo leve, solto, descontraído.

Então, fui para o meu gabinete com planos de checar e-mails e, a seguir, iniciar a leitura de um dos livros da longa fila de espera.

O interfone toca, no exato momento em que me sento diante do monitor. Minha filha atende, e me passa a mensagem: é do porteiro do edifício que me pede para dar socorro médico a uma mulher que está desmaiada, num apartamento do nono andar. Moro no décimo. E diz mais: lá só tem mulheres, que estão apavoradas e não sabem o que fazer!

Neste instante, como num passe de mágica, deixo de me sentir como a pessoa descompromissada e descontraída; o meu processamento mental de informações, isto é, a minha mente em funcionamento, me faz agora perceber, sentir e pensar como um médico pronto para a ação.

Pego tensiômetro e estetoscópio, e começo a descer as escadas formulando hipóteses para antever, adivinhar, o que vou encontrar. (Mulher desmaiada... Seria AVC, trauma crânioencefálico, transtorno cárdiocirculatório, ou simplesmente excesso de bebidas?)

A minha filha, que desceu antes de mim, está me esperando na porta do apartamento e diz: - Ela está se batendo, toda! (Penso logo: Crise convulsiva?)

Entro no quarto e me deparo com a seguinte cena: uma mulher (de agora em diante, vamos chamá-la de paciente), deitada de costas, numa cama, com os pés apontados para a cabeceira, consciente, gritando, chorando e se debatendo freneticamente.

É jovem (mais ou menos 28 anos), branca, está seminua -, vestida somente com calcinha e contida por outras três mulheres: uma mulata avantajada, segurando o braço direito; outra, negra, altiva, magra, elegante, segurando o braço esquerdo; parece vestida para sair. É a mais velha, e aparenta ter entre 45/50 anos. A terceira, uma adolescente (16 anos), branca de cabelos pretos, contém firmemente as pernas da paciente.

De imediato, o meu processamento mental - a minha mente em ação - reorganiza os meus pensamentos, para adequá-los à realidade. Mas que realidade? A realidade de uma pessoa que, dentro do contexto de um quarto, junto com três outras pessoas, está exibindo um aparente descontrole emocional e motor que precisa ser investigado. Numa rápida verificação, observo, os seios estão edemaciados.

Cumprimento a todos, e me aproximo da paciente pelo lado que me parece mais acessível, no caso o esquerdo, e pergunto:

“Como é o seu nome?”

Quem responde é a adolescente:

“O nome dela é Marta! Ela é a namorada de meu pai”

“Ela já teve isto antes?”

Já - responde a adolescente ainda segurando firmemente as pernas da paciente –, mas desta vez foi pior!

Toco no braço da paciente e lhe digo:

“Marta, vou precisar verificar o seu pulso e medir a pressão arterial!”

Ela não me responde verbalmente, (a propósito, durante todo o atendimento, as suas respostas sempre foram averbais), mas pára de movimentar o braço, permitindo-me palpar o pulso e medir a PA.

Os dados vitais estão nos limites da normalidade. Ao ver o resultado no tensiômetro digital, a mulher mais velha, que ainda está a meu lado, exclama: “A tensão está normal!” Concordo, olhando para a paciente, e falando enfática e serenamente com o objetivo de informá-la (a paciente): - “Sim, a pressão arterial está normal, e o pulso também. E isto é muito bom!”

A seguir, a mulher mais velha se afasta, sai e retorna ao quarto, falando num telefone celular.

A essa altura, a paciente parou de se debater, mas ainda ensaia alguns movimentos com a cabeça. Faz um curto silêncio, e recomeça a chorar, gritando:

- “Meu braço, meu braço direito, está dormente! Vou morrer, sei que vou morrer!”

Intervenho, de imediato, utilizando uma estratégia terapêutica. Sei, pessoas como a paciente em estado de crise de ansiedade aguda (CAA), costumam ser hiper-sugestionáveis. Por isso, para acalmá-la, uso sugestões verbais e averbais como se estivesse interagindo, com uma criança assustada. Digo-lhe, num ritmo firme, mas com tonalidade tranqüila: - “Você não vai morrer! Você vai ficar bem!”

Pego seu braço direito, aperto delicadamente (suavemente) a polpa do dedo indicador e mostro para ela, dizendo: - “Olhe, o seu braço está muito bem, cheio de sangue, vivo e saudável!”

Continuo falando sempre de forma firme e tranqüila.

Observo que ela começa a relaxar o corpo, como se estivesse parando de lutar. Peço a adolescente para libertar as pernas. Ela diz: - “Só estava segurando para ela não se machucar!”

Registro a informação e pergunto: - “Por que seus seios estão inchados?”

- “Porque ela fez cirurgia de mama há oito dias!”

- “Plástica?”

- “Sim!”

- “Ela também tomou 25 comprimidos de Valium!”

- “25? Quando?”

- “Há três dias, não foi mãe?”

- “A mãe, a mulher negra, concorda. [6]

“Para quê?”, pergunto.

“Para se matar...!”, responde a adolescente.

“Ela já tentou se matar, antes?”

“Não, mas já ameaçou algumas vezes!”

Faço, interiormente, uma hipótese diagnóstica do que estou testemunhando.

No entender da minha mente em ação, os sinais e sintomas expressos, são mecanismos de defesa de uma pessoa frágil que não está sabendo lidar com o seu contexto vital, e estão se explicitando através de ações biopsicossociais.

  • O descontrole das funções biológicas se mostra através de sinais e sintomas primários, quase infantilizados: gritos, choro, oscilações do humor, dramáticas e exageradas, parestesia dissociativa e ataxia, representada pelos incoordenação motora -, o debater do corpo.

  • O componente psicológico emerge, no quadro geral, como metáforas de gritos de socorro. As suas reações de defesa parecem estar dizendo: “Estou sofrendo!”, ”Prestem atenção em mim!”, “Minha auto-estima está baixa!, ”Preciso de carinho!”, “Preciso de ajuda!”.

Nesta altura a paciente se mostra tranqüila, relaxada, semi-adormecida. Mas, pergunto a mim mesmo: (“Por quanto tempo? Até quando irá durar a trégua?”).

O meu processamento mental, a minha mente incansável em ação, hipotetiza: (Se os mecanismos de defesa são desencadeados por relações conturbadas, os seus interlocutores funcionam como petardos perigosos prontos para atingir a paciente, através de frases desqualificantes, insinuações, atitudes averbais dúbias e outras formas sutis de agressão. Se isso for assim, trata-se de um processo de comunicação patogênica que, se não for trabalhado terapeuticamente, continuará alimentando indefinidamente as reações de defesa).

Próximo passo

(Enquanto reflito sobre o próximo passo, peço um cobertor).

A adolescente dirige-se para a mãe, e diz: - “Mãe, o doutor está pedindo um cobertor.”

A mulher me entrega o cobertor e cubro a nudez da paciente.

Tudo tranqüilo, tudo pacificado, está na hora de sair.

A mãe da adolescente, pergunta: - “Isto não é histeria?”

Replico: - “O nome mudou. Histeria vem de hister, útero em grego, e nomeava a síndrome de furor uterino. As mulheres, somente elas, teriam esta reação por falta de atividade sexual. Hoje, sabemos, tanto a mulher, quanto o homem, o cavalo, o elefante apresentam reações similares!”

- “Qual é, então, o nome?”

- “Reação de ansiedade aguda!”

A mãe pergunta: - “Doutor, o que o Sr. recomenda?”

- “Que ela seja acompanhada...”

- “... Por um psiquiatra?”

- “...sim...”

- “Acabei de falar com o médico da família, e ele me pediu para levá-la ao Aliança (hospital de elite, de Salvador). Ele quer fazer uma avaliação geral. O que o senhor acha?”

- “Acho interessante, contanto que se lembre; precisa providenciar o acompanhamento psiquiátrico...”.

Chega a hora das despedidas.

Cumprimento a todas, e a paciente digo: - “Adeus Marta. Lembre-se, você tem o direito de ser feliz!”.

Antes de sair, escuto o corriqueiro e emblemático agradecimento: - “Obrigado, doutor!”

Começo a subir as escadas, enquanto o meu processamento mental, a minha zelosa e operosa mente em ação, começa a abandonar a postura de médico e, ao chegar ao topo, volto a ser a mesma pessoa, solta e descontraída, de antes.

Resumo

Pode-se conceituar a mente humana a partir de diversos olhares. A que me interessa tem raiz no biológico e expressão no social. Emerge funcionalmente como um processamento contínuo de informações produzido pela atividade de um cérebro vivo e funcionante, interagindo com os estímulos extracerebrais, possibilitando-me perceber, sentir, pensar, agir; e estar ciente de tudo isto. Significa, a mente humana funciona processando informações (dados, imagens, emoções, instruções) que emergem num espaço virtual delimitado de um lado, pelo cérebro (e resto do corpo), e de outro, pelos estímulos perceptíveis do ambiente vital. Sua experiência interior é uma representação privada da realidade “dentro” desse espaço virtual, experimentada pelo sujeito, mas oculta para quem observa “de fora”.

Tais representações têm elementos muito mais próximos de algo que podemos verificar por nós mesmos, muito mais próximos do nível concreto. Por exemplo, você talvez nunca tenha visto, ouvido ou tocado num "id" ou numa "anima", mas certamente pode comprovar por si mesmo quando está gerando uma imagem interna ou ouvindo um diálogo, de você com você mesmo, vindo lá de dentro dizendo o que você fez ou precisa fazer.



[1] QUEIROZ Filho, José Pinto de. Função, Disfunção e Controle da Mente Humana: Fundamentos de Psiquiatria para a Clínica Diária. Editora Universitária Americana. Salvador, BA, 1991.

[2] http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2005/08/050803_bebeeuams.shtm

[3] “Dentro”, vivido como um espaço virtual interior, prenhe de vivências não percebidas pelo interlocutor salvo se as compartilho com ele (espontânea ou involuntariamente) através de palavras, gestos, posturas, ações e outras formas de expressão.

[4] Informação, entendida como tudo que tem significado para o ser humano: a música, o sonho, o beijo, a saudade, as cores, as flores, a violência, etc.

[5] Conjunto entrelaçado de sentidos e significados, compartilhados por membros de um coletivo de pensamento,

[6] Ao que parece, convivem juntos: a paciente (namorada do pai da adolescente), e a mãe da adolescente, mulher (ou ex-mulher?) do namorado da paciente.

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