quarta-feira, 27 de julho de 2011

PEQUENO GUIA DA ENTREVISTA MÉDICA

PEQUENO GUIA DE ENTREVISTA CLÍNICA

José Pinto de Queiroz Filho

“Tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem, é conhecer o homem que tem a doença.” WILLIAM OSLER

Entrevista Médica

A entrevista médica (que contém a anamnese, e não o contrário, como se costuma pensar) é um encontro privilegiado de duas pessoas (a díade, médico/paciente) que ocorre dentro de espaço próprio, em circunstâncias especificas, sob regras pré-determinadas e objetivos a atingir sempre voltados para a promoção da saúde e do bem-­estar e melhora da qualidade de vida do paciente.

A entrevista não é um procedimento apenas verbal, espécie de entrefalas, mas uma interação que comporta outras formas de comunicação humana com destaque para a linguagem averbal.

Enquanto a anamnese procura recuperar a memória de eventos clínicos, através do interrogatório dirigido e sistemático centrado na doença -, IDENTIFICAÇÃO, QP, HDA, I.S., ANTECEDENTES e HISTÓRIA PSICOSOCIAL -, a entrevista utiliza o método de interrogatório semidirigido[1] e da interação semi-estruturada[2] para estabelecer uma interação médico/paciente centrada no doente. A abordagem semi-diretiva é também técnica preciosa para ajudar o paciente a auto-organizar o próprio pensamento. “Por um lado, avalia sinais e sintomas da doença para estabelecer um diagnóstico diferencial; por outro, procura entender a experiência única da pessoa estar doente.[3]

Sendo assim, a entrevista funciona como um valioso instrumento propedêutico e terapêutico que privilegia o paciente na sua totalidade multiaxial valorizando-se como fonte semiológica de informação de dados referentes a fatos, idéias, crenças, maneiras de pensar, opiniões, sentimentos e comportamentos.

Resumindo: a ENTREVISTA busca compreender o doente: a ANAMNESE busca explicar a doença.

A prática da entrevista ou como fazer uma entrevista

Entrevista bem-sucedida e competência para comunicar.

O sucesso da entrevista e, por conseqüência, da anamnese, pode ser inviabilizado pela falta de habilidade do médico para comunicar-se com o paciente.

Pretendo, neste breve guia, mapear caminhos para o estabelecimento de uma interação clínica bem-sucedida - tanto para o entrevistado quanto para o entrevistador.

Atente, no entanto, que não se trata de receita de bolo prévia a ser seguida cegamente, mas de sugestões de técnicas a ser utilizadas na consulta face-a-face com o paciente; depende também do grau de sensatez de quem estiver aplicando, pois, somente assim se poderá criar a empatia necessária para se construir uma interação clínica bem-sucedida

Com fins práticos, fragmentarei as sugestões nos seguintes passos sequenciais:

1. Definir objetivos para cada passo.

2. Fazer pequena entrevista semi-estruturada

3. Iniciar o diálogo semidirigido, investigando: conduta exterior, objetiva, interpessoal; conduta interior, subjetiva, intrapessoal.

4. Investigar situações traumáticas.

5. Fazer o exame mental ampliado pesquisando, verificando e analisando as funções cognitivas e afetivas, à partir dos seguintes eventos: atenção à própria saúde física e mental, capacidade de decidir frente às questões pessoais e sociais básicas, qualidade de vida, estabilidade afetiva, qualidade dos vínculos interpessoais, vida sexual prazerosa, estabilidade financeira, satisfação no emprego, responsabilidade pessoal e social incluindo o sustento de si mesmo, compromisso com o estudo, grau de aceitação no grupo onde está inserido.

6. Delimitar um perfil multiaxial – mental, somático, social e pessoal - do paciente, sempre levando em consideração o contexto onde ele se encontra inserido.

Início

Objetivo para se ter em mente: aproximação inicial com o paciente.

Quando começa a entrevista?

Desde o primeiro contato com o paciente, no corredor, quando está sendo chamado, quando é conduzido até a sala de atendimento, quando é recebido na porta do consultório, ou em qualquer outra circunstância. Daí, por diante, você deve observá-lo, atentamente, (e comunicar-se continuamente com ele), até o fim da consulta – sem deixar de estar ciente de que ele também está lhe observando e, à sua maneira, comunicando-se continuamente com você. A maior ou menor habilidade para você construir esta interação inicial – utilizando as linguagens verbais, para-verbais e averbais – pode redundar em sucesso ou fracasso na obtenção dos objetivos clínicos que pretende atingir.

Como dar continuidade à comunicação clínica?

De início, deixe o paciente falar por, pelo menos, dez minutos, sem interrompê-lo. Não interromper o paciente parece fácil, mas não é: 65% dos pacientes são interrompidos após 15 segundos. Por isso, 54% dos distúrbios percebidos pelo paciente não são considerados pelos médicos e em 50% das consultas médicos e pacientes não concordam sobre qual é a queixa principal. (TORONTO CONSENSUS STATEMENT).

É desejável começar com um assunto que motive o paciente a falar. Habitualmente, sua doença e suas queixas atuais. Enquanto faz a anamnese convencional constituída de IDENTIFICAÇÃO, QP, HDA, I.S., ANTECEDENTES, HSP, para diagnosticar a doença, continue interagindo com o paciente, sempre tendo em mente os dois objetivos principais: conhecê-lo melhor e criar uma interação clínica bem-sucedida.

De que forma?

Ocupando-se em fazê-lo sentir-se acolhido, seguro (interna e externamente) e à vontade.

Para deixá-lo à vontade e propiciar a segurança interna, utilize, preferencialmente, a linguagem averbal deixando claro que vai acolhê-lo e respeitá-lo como ser humano único, facilitando-lhe a emersão da fala singular de uma pessoa que procura ajuda. Fala que só pode ser legitimada por ela mesma, autora e protagonista, até o possível, de sua vida. Desta forma, propiciam-se condições para que possa reproduzir livremente com o seu discurso “a lenta abrasão do trágico da experiência humana[4] que dá sentido e grandeza a cada vida pessoal, ainda que simples.

O averbal abrange necessariamente: comportamento cinético (movimentos do corpo), expressão facial, postura, gestos, inflexão de voz, seqüência, ritmo e cadência das palavras, e qualquer outra manifestação sem o verbo, sem a palavra, de que o organismo é capaz, acrescidos das pistas comunicacionais infalivelmente presentes no contexto da consulta clínica onde ocorre a interação médico/paciente.

Faz parte deste tópico o apresentar-se. Apresente-se, diga o seu nome. Informe-se antes e chame-o pelo nome, ou então, pergunte-lhe como prefere ser chamado. Aperte a sua mão, na chegada e na saída. Trate as pessoas idosas por Sr. ou Sra. Invista-se de facies tranquilo, amistoso, gentil. Comporte-se de forma discreta e seja empático[5]. Mantenha distância interpessoal apropriada de acordo com as circunstâncias. Quando necessário, toque amistosamente o paciente.

Para a segurança externa, basta garantir-lhe a privacidade e o sigilo profissional.

DICAS:

Não desqualifique[6] o discurso do paciente (interrompendo e desconsiderando as suas afirmações), pois vai colocá-lo na defensiva e terá dificuldades para atingir os objetivos clínicos – de diagnóstico, prognóstico, terapêutico.

O que se deve observar desde o início?

A apresentação do paciente: Descreva o semblante (fácies[i][7]) – aparência, rosto, cabelos, olhos (e expressões do olhar), boca (e sua expressividade), postura corporal, atitude psicomotora, vestuário. Observe, a partir de seu comportamento durante a interação, os modos de perceber, sentir, pensar e agir, e pergunte sobre a que gosta/não gosta, a que prefere/não prefere. Peça para apontar qualidades e defeitos das pessoas, das coisas, dos acontecimentos[8], mas também indague como se alimenta, como dorme, como se diverte e como se relaciona com os outros.

Acolhimento ou Pequena entrevista semi-estruturada

Objetivo para ter em mente: estabelecer o contato inicial.

Iniciando o diálogo semi-dirigido

Objetivo para ter em mente: saber ouvir é tão importante quanto saber perguntar.

Uma frase para começar?

Pode-se iniciar a entrevista perguntando: O que posso fazer por você? Como posso ajudá-lo? Ou outras variantes do mesmo tema.

Após o início da entrevista, você pode ousar mais, dizendo:

Gostaria de saber todas as coisas sobre você, ­mas só aquelas que você possa me contar! (Deixa o paciente mais seguro porque (pensa que) pode decidir a que dizer ou não).

Há muitas coisas que você não quer que eu saiba, que você não quer me contar. Há muita coisa sobre você mesmo que não quer discutir, por isso vamos conversar sobre o que você quiser. (Dá ao entrevistado a opção de escolher o que quer comunicar)

.

Você pode responder às minhas perguntas sem dizer nem um pouquinho a mais nem a menos do que devo saber! Isto é tudo que deve fazer -. nada mais. (Sugere limites toleráveis para a pessoa se comunicar).

Frase para o fim da entrevista

Se existem coisas especiais que ainda não foram ditas, esse é o momento. Mas somente para coisas especiais! (Torna mais fáceis as auto-revelações difíceis).

Investigando a conduta interpessoal, objetiva, exterior.

Objetivo para ter em mente: pesquise a relação do paciente com o mundo externo.

Condutas pregressas e atuais: como se comporta em relação a família, a escola, o trabalho, a profissão e a vida sexual.

Experiências de vida amorosa, afetiva, sentimental.

Dados sobre a iniciação sexual (se necessário).

Informações sobre vida sexual ativa (quando necessário).

Preferências sexuais (se couber).

Escola.

Trabalho.

Primeira grande alegria.

Primeira grande decepção.

Três experiências importantes.

Como a doença interferiu em sua vida.

Quem é {ou foi) a pessoa mais importante de sua vida. Por quê?

Qual a coisa mais importante que já fez? Por que foi importante?

Qual a coisa mais importante que deixou de fazer? Por quê? .

Qual a coisa mais importante que precisa fazer? Por quê?

Investigando a conduta intrapessoal, subjetiva, interior.

Objetivo para ter em mente: procure penetrar no mundo interior do paciente perguntando sobre o seu pensar e o seu sentir:

A primeira experiência de que se lembra.

O que sente sobre pais e irmãos.

Experiências da infância e da adolescência.

O que sente sobre a amizade e as relações com os amigos.

O que sente sobre as pessoas?

Opinião sobre o mundo em que vive.

Que nota, de 0 a 10, daria para sua qualidade de vida?

Investigando situações traumáticas da vida.

Objetivo para ter em mente: tentar compreender o agora, relacionando-o com eventos passados.

Traumas da infância e da adolescência; problemas conjugais; conflitos crônicos; envolvimento com drogas; violência e morte na família; rompimento afetivo; perda de emprego; transtornos sexuais; acidentes, doenças, stress, frustrações pessoais, etc.

Fazendo o exame das funções mentais restritas.

Objetivo para ter em mente: investigar o sentir, o pensar e o agir do paciente no aqui/agora.

Investigar as funções mentais: consciência (alerta, ciente de si e do ambiente, auto e aloorientado) sensopercepção (ilusões?), memória (retrógrada, anterógrada, de trabalho, social), pensamento (idéias de ruína, suicídio, delírio, delirium), humor e afetividade em geral (alegria ou tristeza exaltadas, irritabilidade fácil, agressividade, apatia, bom contato), inteligência (normal, superior, inferior), juízo de realidade, utilizando como fontes de dados a apresentação (aparência, modo de vestir-se), mímica facial, modo de se expressar (riqueza ou pobreza verbais), atitudes, comportamento e reações durante a entrevista; linguagem verbal (coerente/incoerente). Linguagem averbal (adequada à situação? Sincrônica com a linguagem verbal?).

Síntese da compreensão do doente.

Objetivo para ter em mente: sintetize a sua compreensão do doente como uma pessoa que tem uma doença, utilizando como referenciais:

Caráter e personalidade.

Planos para o futuro (esperançoso com o porvir? Desiludido? Em expectação? Conformado? Revoltado? Indiferente? Desesperado)?

Perspectivas de recuperação. O que pretende fazer quando deixar o hospital (ou receber alta) Quando concluir o tratamento no ambulatório? (Quando ficar bom)

Que tipo de ajuda acredita irá necessitar. Quem poderá ajudá-lo?

De onde tira forças para enfrentar a doença? (Da família, da religião, do companheiro (a)). De si mesmo? De que forma?).

Por fim, resuma a sua avaliação sobre o ser humano enfermo. Quem é, como sente, como pensa, o que faz? Mostrou-se afável, colaborador, rebelde, antagônico, bom informante? Fala muito ou é lacônico? Simpático ou antipático? Por quê? Colaborou com a entrevista? Forneceu informações confiáveis? Como a doença interferiu na sua vida? Como está enfrentando tais interferências? É capaz de aderir ao tratamento, seguindo à risca instruções e prescrições?

Finalizando

O médico mais eficaz é aquele capaz de transformar o exercício da entrevista num grande momento para si e para o paciente. Num agora sem pressa nenhuma (mesmo que acredite que não tem tempo suficiente). Por mais breve que seja, o encontro entre médico e paciente deve ser acolhedor, seguro, gratificante, alimentado por rara empatia que só acontece se existe algo mais do que idéias ditas com palavras.

A presença do outro é sempre significativa: para o entrevistador, a presença do entrevistado; para o entrevistado a presença do entrevistador. Ou seja, a interação humana possui mão dupla.

Pode ser experimentada como inibidora, liberadora, organizadora. Isto porque toda atividade é centrada na comunicação, no aqui/agora, de tal forma que o papel que o outro exerce na interação é sempre significativo. O resto é devaneio.

O médico deve cultivar dentro de si um sentimento humanístico de compreensão empática. Deve adentrar a problemática fundamental do paciente, com a percepção aguda de que ele é um todo multiaxial constituído pelas interfaces mental, somática, social e pessoal, que funciona dentro de um contexto específico.

Na hora certa, o médico precisa exercitar a sua competência de cuidador e curador utilizando o saber adquirido, a palavra adequada, o carinho esperado, o apoio confortador.

Bibliografia consultada

HALEY, Jay, Terapias não-convencionais, as técnicas psiquiátricas de Milton H. Erickson, Summus Editoria1, São Paulo, 199l.

DAVIS, Flora, Comunicação não-verbal, Summus Editorial, São Paulo. 1970.

Stewart, Moira e at., Medicina centrada na pessoa, Transformando o método clínico, Artmed, 2ª. Edição, Porto Alegre, 2010.

LEADER, Darian, CORFIELD, David, Por que as pessoas ficam doentes? Como a mente interfere no bem estar físico, Best Seller, Rio de Janeiro, 2009.

BIRD, Brian, Conversando com o paciente, Livraria Manole, São Paulo, 1975.

DE SÁ. Cristina, O cuidado do emocional em saúde, Atheneu, São Paulo, 2010.



[1] O médico pode fazer perguntas sistemáticas, mas deve deixar espaços para que o paciente partilhe com o seu discurso de maneira livre e espontânea. Desta maneira é possível observar como o paciente se organiza mentalmente e, inclusive, ajudá-lo a organizar-se.

[2] Entrevista semi-estruturada é aquela que parte de certos questionamentos básicos que o paciente vai respondendo, de maneira ativa e espontânea, seguindo a linha de seu pensamento e de suas experiências, a partir do foco principal colocado pelo médico.

[3]

[4] FÉDIDA, Pierre, Dos Benefícios da Depressão - Elogio da Psicoterapia.

[5] Empatizar é ser capaz de imergir no mundo subjetivo do paciente e de participar de sua experiência na extensão em que as comunicações verbais e averbais permitam.

[6] Diz-se, há desqualificação da comunicação quando os interlocutores interagem invalidando a própria comunicação ou a do outro.

[7] 1 O aspecto, a figura de um corpo tal como se apresenta à vista. 2 O conjunto de características de forma e configuração que permite um grupo de indivíduos se diferenciar facilmente de outro grupo. 3 Med. Alteração do aspecto da face em decorrência de certas patologias (fácies hipocrática). Dicionário Aulete

[8] O estado mental de uma pessoa corresponde às significações que ela atribui às outras pessoas e ao seu meio ambiente, de tal forma que identificar essas significações equivale a diagnosticar o seu estado mental.



domingo, 29 de maio de 2011

DIRETO AO PONTO


DESCONSTRUINDO PARADIGMAS MÉDICOS

José Pinto de Queiroz Filho - Professor Adjunto da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

A interação médico/paciente e a mesa de consultório

Proxêmica é a ciência que se propõe estudar como os indivíduos interpretam e utilizam o espaço entre eles, dentro do processo de comunicação. Comentarei, aqui, sobre o uso da mesa de consultório, entidade anciã e onipresente, denunciando-a como uma barreira que separa o médico do paciente dificultando a comunicação durante a consulta clínica.

De um lado da mesa -, território privilegiado do doutor -, encontra-se o médico, seu dono e detentor do saber cientifico, que costuma preenchê-la com objetos pessoais, estranhos ao paciente. Habitua-se a sentar-se numa cadeira usualmente mais alta e mais confortável que a do paciente. Esta simples configuração do setting terapêutico costuma atrapalhar a comunicação porque permite que o médico assuma uma duvidosa posição superior e, ao mesmo tempo, funciona como proteção ou defesa (!?) contra as idiossincrasias inevitáveis da interação com o semelhante.

Do outro lado da mesa, frente a frente com o interlocutor, está o paciente na posição inferior de mero visitante adoecido, frágil e cientificamente ignorante, obrigado, por sua condição de doente, a participar de uma interação assimétrica – onde o médico domina e ele é dominado. Neste contexto não tem outra opção, senão retrair-se e se deixar subjugar. Fica ansioso, vulnerável, intimidado impossibilitado, portanto, de se comunicar com a eficácia desejada, principalmente quando o tempo que dispõe é perversamente limitado. Algumas vezes, numa atitude reativa de contestação, tenta ser competitivo e não colaborador agravando a interação com novos conflitos que vão prejudicar, ainda mais, a eficácia da comunicação clínica.

Constrói-se, assim, um contexto vicioso que vai impossibilitar o exercício de uma comunicação de qualidade, necessária para o exercício pleno de uma interação clínica bem-sucedida. Por isso, defendo a abolição do posicionamento da mesa1 que separa o médico do paciente atuando como um obstáculo sólido a impedir a comunicação clínica efetiva.

1 A mesa pode continuar, mas, de preferência, ao lado do médico e do paciente

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ENTREVISTA - A ARTE DA ESCUTA

José Pinto de Queiroz Filho
Para o médico a entrevista é um IBM (INSTRUMENTO BÁSICO DA MEDICINA) que lhe permite abordar o indivíduo adoecido no espaço da consulta clínica -, área operacional definida por regras sobredeterminadas onde os interlocutores devem interagir dentro das limitações estabelecidas por essas regras capazes de propiciar o diálogo médico/doente (ver fig) através de técnicas, táticas e estratégias de comunicação centradas no paciente.


Arcabouço do Contrato

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O arcabouço do contrato contém e delimita o espaço de manobra, dentro do qual os interlocutores podem exercitar as técnicas, táticas e estratégias interativas para definir as condutas das relações (pragmática da comunicação) e produzir o sentido das mensagens (semântica da comunicação). Constituí-se, portanto, o espaço de manobra (da linguagem, da conduta, do tempo, do espaço, dos conteúdos, da finalidade, etc.) de que dispõe os sujeitos comunicantes para construir seus discursos. É desse conjunto constituído pelo arcabouço de referência e pelo espaço de manobra das estratégias, que depende toda a situação de comunicação.


Dentro do espaço de manobra, o médico precisa tornar-se hábil para escutar e para dizer, sempre centrado no doente. Mas a grande questão concentra-se mais sobre o como dizer. Isto é, sobre as escolhas e o exercício das estratégias de organização do discurso, com o objetivo de produzir efeitos semânticos e pragmáticos no destinatário da comunicação, efeitos que devem ser liberadores, construtores e desinibidores característicos de uma entrevista clinica bem-sucedida.



Entrevista Clínica Bem-Sucedida?

Estou ciente de que é complicado chegar-se a um acordo a respeito do que é uma "interação clinica bem-sucedida". Para os propósitos da Medicina, pressuponho que a interação clínica bi-pessoal bem-sucedida é aquela que se realiza em benefício do paciente, coerente, portanto, com os desejos, os interesses e as necessidades desse paciente porque ancorada no seu mundo intrapessoal. É, por conseguinte, uma interação centrada no paciente na qual o entrevistador precisa adotar uma postura interpessoal facilitadora para liberar, estruturar e individualizar o discurso que está sendo construído e garantir que a comunicação do paciente seja menos uma resposta à comunicação do entrevistador e mais a explicitação de seu próprio mundo intrapessoal.



A suposição contrária é a de que a relação clínica bi-pessoal mal-sucedida, viola a regra básica de centrar-se no paciente, optando por centrar-se mais no mundo intrapessoal do entrevistador. Dessa forma, com as estratégias mais direcionadas para os interesses, desejos e necessidades do entrevistador, a produção de sentido e a definição das condutas pragmáticas tornam-se estranhas, inibidoras e desqualificantes para o entrevistado. Supõe-se que tais dificuldades de comunicação podem produzir violentos "rasgões" no tecido comunicacional, inviabilizando uma comunicação interpessoal bem-sucedida.


Curioso é que durante o processo interativo, os interlocutores estão parcialmente inconscientes das regras que devem ser seguidas numa comunicação bem-sucedida, ignorando, também, até certo ponto, as desqualificações que violam a interação discursiva, gerando a comunicação mal- sucedida. De outra parte, se a opção é ter uma percepção mais nítida do processo, em si, da estrutura formal e final da teia interacional, precisa-se analisar a cadeia dos discursos com certa independência do "conteúdo" .



Contribuição da Área Jornalística
Numa linguagem simples e cativante, embora da perspectiva da entrevista jornalística, CAPUTO fala sobre técnicas de entrevista que podem interessar ao médico:


Perguntamos porque não sabemos a resposta e queremos saber perguntar de verdade. Querer ouvir de verdade é o que nos ajudará a construir uma boa entrevista.


Podemos estragar nossas perguntas de duas formas. Quando buscamos "arrancar" algo do entrevistado e quando nos impregnamos de arrogância e perguntamos imaginando saber as respostas ou apenas para comprovar nossas próprias opiniões e teses sobre um assunto. O que nos resta então? A honestidade da criança que, para além do o que é?, pergunta sempre por quê? E como?


A criança pergunta porque realmente quer saber a resposta. Por isso sempre ouve a resposta. Além disso, com suas perguntas, a criança desconcerta, muda a perspectiva, sempre coloca um outro ponto de vista que desarruma o que pensávamos arrumado
”.


Pré-definindo um Objetivo Geral
Diante de todo novo paciente alunos e profissionais experientes costumam vivenciá-lo como um enigma a ser desvendado. Na verdade, esse é um dos aspectos fascinantes da profissão. O médico chega ao consultório, ambulatório, hospital ou outro lócus em que trabalha sem a menor idéia do que irá encontrar.


Sendo assim, parece-me importante delimitar com precisão um objetivo geral que deverá conduzi-los na feitura da entrevista. Sugiro, então, que, para começar, se tenha em mente a indagação: O que pretendo obter com esta entrevista?



Delimitando Objetivos Específicos


 Identificar-se ao paciente, e explicar os objetivos da entrevista.
 .
 Perguntar ao entrevistado como prefere ser chamado.

 Estar ciente de que nada substitui o "olho no olho".

 Quando examinamos um doente, não há como separar as quatro interfaces (somática, mental, social, pessoal) porque o adoecer afeta o paciente como um todo, na sua integridade unívoca. Por isto, procure abordá-lo sempre da forma mais ampla possível para abranger todas as suas interfaces e obter o máximo de variáveis sobre a sua saúde e a sua doença (do paciente).

 Quanto mais variáveis forem identificadas mais ampliadas ficarão as explicação e compreensão do doente e da doença, tornando maiores as possibilidades de se estabelecer um diagnóstico mais preciso e uma terapêutica mais efetiva.

 Saiba quando usar o interrogatório dirigido e a entrevista semidirigida, ambas úteis quando empregados em contextos clínicos diferentes.

 Tenha em mente, na prática clínica enfrentamos todos os dias desafios e conflitos que testam a nossa ética e a nossa humanidade.

 Ao terminar a consulta faça um resumo da entrevista para o paciente e pergunte-lhe se é necessário corrigir ou complementar os dados.

 Dê-lhe também a oportunidade de falar, se quiser, sobre algo importante que deixou de dizer durante o transcurso da entrevista, porque teve vergonha, não quis ou não se lembrou.



Tomando decisões

Tomar decisões médicas (de diagnosticar, solicitar exames, executar procedimentos arriscados, prescrever tratamentos) são escolhas. E a escolha implica em exclusão porque, em geral, quando escolhemos uma coisa, excluímos as outras. Por isso, ao longo da vida, o tomar decisões obriga o médico a fazer escolhas difíceis e a assumir as responsabilidades pertinentes.



Tipos de Entrevista

Interessam-me as entrevistas diretiva e semidiretiva.


Entrevista diretiva
A entrevista diretiva utiliza perguntas com gabaritos pré-definidos, genéricos e repetitivos que não podem ser individualizados. Desta forma, fornece os dados genéricos, mas oculta os específicos. Sustenta-se em questionários e roteiros padronizados que resultam em tabelas e dados estatísticos. Por isso, não serve para abordar o todo somático/mental/social/pessoal que é o paciente.


Destina-se a investigações quantitativas (tudo que pode ser quantificado como padrões de peso, altura, tamanho, medidas de dados vitais, etc.), mas é incompetente para promover a comunicação entre as pessoas porque engessa a livre interação entre entrevistado e entrevistador.



Entrevista Não-Diretiva

A entrevista não-diretiva – é a que se sustenta nos princípios de antropologia, sociologia e humanismo. É fundamental para a prática da Medicina porque permite que se conheça o paciente na sua totalidade.


Na prática, não-diretividade significa deixar o entrevistado falar (quase) livremente. O bom entrevistador sabe escutar, pois a entrevista é, antes de tudo, a arte da escuta. Neste caso, entrevistado e entrevistador saem transformados do encontro.


Em geral, alguns entrevistadores tendem a intervir procurando controlar o discurso do entrevistado, mas quanto mais deixá-lo falar, melhor. Na verdade, alguns entrevistadores só são capazes de exercer a escuta inteligente, se antes se submeter a um aprendizado.



Percepção Passiva e Percepção Ativa
Os sensórios são interfaces permeáveis responsáveis pelas trocas de informações entre o sujeito e a realidade exterior; quer dizer, entre o mundo interno do indivíduo e o mundo externo onde ele se encontra inserido. Ou de forma mais sintética, entre as experiências intracerebrais do ser vivo e a realidade extracerebral que lhe circunda.


Sobre o tema, BOSI escreveu, exemplificando com a visão:
Há um ver-por-ver, sem o ato intencional do olhar; e há um ver como resultado obtido a partir de um olhar ativo. No primeiro caso, o cego, curado de sua doença, poderá dizer: "Estou vendo!" No segundo, a pessoa dotada de visão, depois de olhar atentamente para o céu, exclamará: "Finalmente consegui ver a constelação do Cruzeiro". (Bosi, in Novaes, 1988, p. 66).


Da mesma forma como Bosi discerniu duas maneiras de olhar, um olhar receptivo e um olhar ativo, podemos classificar o exercício da entrevista em receptivo e ativo.


Significa que podemos captar as experiências da realidade de duas formas: voluntária (ativa)e involuntária (passiva).

È receptiva, passiva ou involuntária quando captamos as experiências de forma não intencional; e ativa ou voluntária quando fazemos a busca intencional da realidade que queremos captar. A entrevista clínica precisa, de preferência, ser exercida de forma ativa.


Finalizando
A entrevista médica é um instrumento básico da Medicina que se processa nos espaços da consulta clínica (consultório, ambulatório, hospital e quejandos) e é regida por regras sobredeterminadas. Permite a abordagem semiológica das interfaces somática, mental, social e pessoal do indivíduo e deve ser praticada sempre centrada no paciente.



Referências:
Professor Adjunto de Psiquiatria da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
Instrumento Básico da Medicina
QUEIROZ, José Pinto de, monografia para o curso de Saúde Mental da EBMSP.
CAPUTO, Stela Guedes, Sobre Entrevistas, teoria, prática, experiências.. Digital source.
Citado por CAPUTO, Stela Guedes, in Sobre Entrevistas, teoria, prática, experiências.. Digital source

sábado, 8 de março de 2008

MEDICINA: NOVAS COMPETÊNCIAS, NOVOS DESAFIOS

MEDICINA: NOVAS COMPETÊNCIAS, NOVOS DESAFIOS

José Pinto de Queiroz Filho [1]

"Lamento não estar iniciando meus estudos hoje. As possibilidades de pesquisa atuais são bem mais interessantes do que há quarenta anos, quando comecei", Steven Rose, neurocientista. Declaração feita à revista VEJA, edição 1976, de 04 de outubro de 2006.

Primórdios

Desde os primórdios, pela própria singularidade do labor médico, o estudo das dimensões humanas, distintas da biológica, sempre fizeram parte do ideário da Medicina.

Historicamente, o ser humano sempre divinizou o médico atribuindo-lhe competência para atender às suas múltiplas necessidades, incluindo a escuta e a resolução de suas aflições. Pode-se compreender tal atribuição atentando-se para o fato de que, na origem da Medicina (oráculos, xamãs, feiticeiros), as práticas de saúde eram mediadas por relações deificadas, sustentadas por temáticas religiosas primitivas e/ou do senso comum.

O domínio do biológico

No início do século XX (principalmente, após as duas Guerras Mundiais), desencadeou-se um inconteste e extraordinário desenvolvimento da tecnologia aplicada à Medicina – um caminho sem volta – trazendo incalculáveis benefícios para a humanidade. Junto, o desenvolvimento simultâneo de saberes biológicos - habitualmente, produzidos pelos próprios médicos no exercício de suas práticas -, gerando frutos simultâneos nas áreas investigativas e curativas de ponta. À luz forte das evidências, o clínico sentiu-se estimulado a procurar no corpo as respostas para explicar as doenças. Como conseqüência, diminuiu o seu interesse pela subjetividade do paciente e passou a eleger a abordagem somática como paradigma da prática médica. A abordagem psicossocial foi colocada em segundo plano.

Patologia Biográfica: abordagem tridimensional, biopsicossocial

A partir dos anos vinte deste século (XX) começam a surgir críticas paulatinamente crescentes à maneira pela qual se processa a prática clínica. Existia uma mal estar, que começara a se difundir em alguns meios médicos, principalmente alemães, quando ao desconhecimento recorrente da pessoa dos enfermos por parte dos médicos. Estes os encaravam como meras máquinas corporais, despreocupados com os sofrimentos mobilizados pelo estado da enfermidade nos indivíduos. Mediante esta crítica, se estabelecia uma distinção fundamental, se destacando um outro campo de preocupação tecnológica para os clínicos. Assim, seria necessário considerar além da enfermidade somática propriamente dita, explicada num discurso biológico, a vivência da enfermidade, isto é, os seus efeitos na subjetividade do indivíduo que enferma.” [2]

No evoluir, a ênfase no biológico começou a criar conseqüências paradoxais:

- Os avanços significativos dos saberes e da tecnologia, não conseguiram produzir mudanças profundas na qualidade de vida do paciente; tampouco aperfeiçoar as práticas de saúde fundamentadas em valores humanitários sólidos. [3]

- Incomodados, os próprios usuários do sistema de saúde começaram a cobrar, do médico, mais atenção, acolhimento, escuta, argumentando: tais atitudes são tão importantes para o processo de cura quanto a competência técnica. [4]

- A cientificidade da prática, com ênfase no soma, não está sendo suficiente para diminuir a popularidade da medicina não-convencional, dita, sem base cientifica.

- Enfim, o sucesso da Medicina focada na tecnologia do biológico, que deveria ser acompanhado pelo aumento do grau de satisfação de médicos e pacientes, vem mostrando um número crescente de desiludidos e insatisfeitos. [5]

Inicialmente a receptividade da instituição médica foi nula”. [6], mas influenciada por conceitos oriundos da psicanálise, foi atualizando a validação do sujeito. Na progressão, no momento em que a psicanálise mostrou-se um campo disciplinar atrasado e pré-paradigmático [7], povoado de diversidade de escolas, em que cada uma delas reivindica o domínio absoluto do saber único e universal sobre a psiquê humana -, a medicina foi se desvencilhando, pouco a pouco, dos marcos teóricos da doutrina freudiana e passou a privilegiar os quadros conceituais de outras teorias psicológicas para reinventar seu próprio caminho.

A decisão de validar clinicamente o sujeito biográfico fortaleceu-se na medida em que as dimensões psicológicas e sociais foram se legitimando cientificamente, firmando-se como causalidades de outra natureza -, agentes co-responsáveis no processo do adoecer. Acordou-se, então: a abordagem da doença não pode se processar unicamente dentro de uma visão puramente biológica devendo considerar as vivências decorrentes do adoecimento, bem como o quanto a qualidade de vida - a sensação subjetiva de bem estar - se encontra comprometida. Apesar disso, deve-se atentar para o fato de que “...em todos os quadros conceituais em que a problemática é formulada não se postula que estes fatores psíquicos são exclusivos, mesmo que considerados fundamentais, pois se articulam com fatores outros, de ordem somática, e do seu entrelaçamento causal serão produzidas alguma enfermidades somáticas.[8]

E mais: “Na tentativa de uma definição abrangente, alguns autores priorizam ser (a qualidade de vida) envolvida por todos os aspectos que temporalmente cercam o diagnóstico e tratamento de uma doença e se estendem além da questão médica (mecanicista), incluindo estilo de vida, comunidade e vida familiar. Shin & Johnson sugerem que a qualidade de vida consiste na possessão dos recursos necessários para a satisfação das necessidades e desejos individuais, participação em atividades que permitem o desenvolvimento pessoal, a auto-realização e uma comparação satisfatória entre si mesmo e os outros. Da mesma forma, o "Grupo para Qualidade de Vida" da Organização Mundial de Saúde inclui em sua definição a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto cultural e no sistema de valores em que ele vive e em relação a seus objetivos. [9]

Por conseqüência, os eventos biográficos do sujeito revitalizam-se no campo dos saberes e da prática médica, impulsionando o clínico a se ocupar, outra vez, com os aspectos psicossociais de seus pacientes.

Para implementar tais habilidades, os currículos das escolas médicas estão sendo reformulados com a introdução de novas disciplinas essenciais para o aprendizado das novas competências, com status idênticos àquelas ditas biológicas. Hoje, o seu braço clínico mais importante são as disciplinas Semiologia Mental, Psiquiatria e Psicologia Médica, as duas últimas ministradas na maioria das escolas de Medicina.

Some-se a isso, a tentativa de sistematizar novas (!?) habilidades, tais como:

1 – A COMUNICAÇÃO CLÍNICA, como procedimento privilegiado para o sucesso do ato médico

A comunicação é a essência de qualquer atividade humana. Em Medicina, sempre foi onipresente, a cada passo. Dada a sua relevância no exercício da prática médica, a tendência atual é considerar o aprendizado pragmático da comunicação clínica como nova (?!) habilidade instrumental indispensável para a construção de uma relação médico/paciente bem-sucedida, base do sucesso de tudo mais que lhe sucede - diagnóstico, prognóstico, terapêutica.

2 – Terapêuticas NÃO ALOPÁTICAS

O uso das drogas, altamente necessárias quando bem indicadas, se utilizadas isoladamente nem sempre é suficiente para atender ao paciente como o todo que ele é. Além disso, a medicalização, pura e simples, estimula a sua passividade, tornando-o menos capaz de co-participar de seu próprio tratamento. Para capacitar-se às novas exigências, o médico não especialista passou a se familiarizar com outras formas de terapia não/alopática -, naturais, vicinais, psicoterápicas.

3 – VIESES mais amplos

A patologia do ser humano não se resume ao soma. É muito mais que isto. “Realizar o diagnóstico no nível lesional ou no disfuncional seria manter-se no plano superficial da enfermidade.[10] A patologia está localizada no corpo anatomopatológico, mas também no corpo afetivo e no corpo das inter-relações pessoais. Por isso, não se pode ignorar “... coisas fundamentais como de que o doente é antes de mais nada uma pessoa que sente e sofre como qualquer outro humano, principalmente quando se defronta com a experiência e a possibilidade da morte.“ [11]

Os que se concentram nos dados somáticos, dando pouca importância aos fatores biográficos, ignoram que só podemos exercitar, com eficácia, a nossa atividade clínica quando nos centramos no paciente como sujeito, valorizando a sua totalidade biopsicossocial.

4 – Incursões na área SOCIOECONÔMICA

A onipresente dificuldade socioeconômica da maioria dos enfermos de nosso país é outro dado que impele o médico a ampliar a percepção do processo saúde-doença para além do enquadre clínico da consulta tradicional.

Enfim, são novas competências e novas responsabilidades próprias da prática médica do século XXI que tem o objetivo de promover a saúde do paciente na sua integralidade biopsicossocial.

Concluindo

A Medicina, nos primórdios, ocupava-se em compreender o ser humano. As evidências de que o corpo é a causa primeira das enfermidades, levou o clínico a privilegiar a explicação da doença, em detrimento da compreensão do doente. O vínculo explicativo (causal) predominou (e, de certa forma, ainda predomina) sobre o vínculo compreensivo (significado). Posteriormente, os fatores psicossociais começaram a ser implicados como co-responsáveis na precipitação e/ou na manutenção das enfermidades, e o clínico viu-se obrigado a revalidar o liame compreensivo. O novo olhar também exigiu, das escolas médicas, mudanças nos currículos para adequá-los aos novos tempos.

Pós-conclusão: a propósito de CRÍTICOS

Com a ampliação das perspectivas semiológicas e terapêuticas no espaço da prática médica -, que ratificou a hegemonia médica na área de saúde -, surgiram críticos e opositores. BIRNE resumiu a questão numa frase emblemática, quando criticou a orientação clínica de BALINT: “A Medicina se transforma miticamente na promotora da felicidade humana, na medida em que tende a se ocupar de uma parcela crescente dos conflitos apresentados pelos indivíduos no seu cotidiano”. [12]

Das críticas, emergiram acusações. Comentaremos duas:

1. O expansionismo da Medicina converte o profissional num representante dos interesses das elites, “lugar estratégico do controle político das massas”. (BIRMAN, 1980)

2. O médico resiste a dividir o poder e a hegemonia na área de saúde.

Discordo de ambas. No meu entender, trata-se de uma avaliação equivoca dos profissionais de saúde de atribuir, a cada médico, a competência pelo campo todo da Medicina.

Por conta desta perspectiva destorcida, outros críticos defendem a necessidade de se fragmentar a Medicina em novas profissões múltiplas e delimitadas, sob a alegação de que os saberes médicos se agigantaram de tal forma que não podem mais ser domínio de uma só profissão.

Os médicos estamos cientes de que a Medicina (e não somente a Medicina) possui saberes e práticas cujas amplitudes nenhum profissional, individualmente, é capaz de abarcar. É certo que, genericamente, somos melhores informados do que o leigo, e menos que um colega especialista, mas tal constatação não implica em expansionismo ou na necessidade de manter, a todo custo, o poder e a hegemonia. No meu entender, tal postulação traduz uma tentativa ingênua de fragmentar as práticas para reduzir a influência do médico na área de saúde. Esquecem-se, no entanto, o que nos faz um grupo profissional coeso é exatamente a formação básica, comum, que todos temos de adquirir antes da especialização. Este é o fundamento que nos torna uma classe profissional indivisível, apesar das especializações.

LIVROS E TEXTOS CONSULTADOS

1. BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980.

2. BALINT, Michael, O médico, seu paciente e a doença, Atheneu, Rio de Janeiro/São Paulo, 1975.

3. DELAY, Jean, PICHOT, Pierre, Manual de Psicologia, Toray-Masson, S.A. Barcelona, 1966.

4. FRANCISCO B. ASSUMPÇÃO JR., EVELYN KUCZYNSKI, MARIA HELENA SPROVIERI, ELVIRA M. G. ARANHA, Escala de avaliação de qualidade de vida, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.58 n.1 São Paulo mar. 2000.

5. CAPRARA, Andréa; RODRIGUES, Josiane, A relação assimétrica médico-paciente; repensando o vínculo terapêutico (a.caprara@flashnet.it).

6. KUHN, T, A estrutura das revoluções científicas, São Paulo, Perspectiva, 1970.

Endereço para correspondência

Rua Wanderley Pinho, 243/1003, Itaigara, SSA, BA, 41815-270.

Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Ladeira de Nazaré, s/no., Salvador, BA.

Tel: 71 34917724 e 71 81823839.

mrjustice@oi.com.br



[1] Professor Adjunto de Psiquiatria e Semiologia Mental da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

[2] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 91.

[3] CAPRARA, Andréa; RODRIGUES, Josiane, A relação assimétrica médico-paciente; repensando o vínculo terapêutico (a.caprara@flashnet.it)

[4] DELAY, Jean, PICHOT, Pierre, Manual de Psicologia Médica, Toray-Masson, S.A. Barcelona, 1966.

[5] Ibidem.

[6] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980

[7] KUHN, T, A estrutura das revoluções científicas, São Paulo, Perspectiva, 1970.

[8] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 93.

[9] In Escala de avaliação de qualidade de vida, FRANCISCO B. ASSUMPÇÃO JR., EVELYN KUCZYNSKI, MARIA HELENA SPROVIERI, ELVIRA M. G. ARANHA, Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v.58 n.1 São Paulo mar. 2000.

[10] BALINT, Michael, O médico, seu paciente e a doença, Atheneu, Rio de Janeiro/São Paulo, 1975.

[11] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 73.

[12] BIRMAN, Joel, Enfermidade e Loucura, Ed. Campus, RJ, 1980, pg. 82.

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